No Acre, donos de veículos encontram dificuldades em anular multas de placas clonadas

78

Quadrilhas que atuam nesse tipo de crime geralmente pegam veículos com características parecidas para aplicar golpe.

Receber alguma multa de trânsito de um lugar onde nunca esteve é um dos indícios de que o carro ou motocicleta pode ter sido clonado. E o pior é tentar resolver a situação e não ter sucesso. No Acre, alguns condutores enfrentam dificuldades em resolver esse problema.

Em 2018, segundo o Departamento Estadual de Trânsito do Acre (Detran-Acre), várias reclamações de vítimas do golpe foram feitas junto ao órgão. Mas, segundo explicou o gerente do Registro Nacional de Veículos Automotores (Renavam), Eldivon Montefusco, somente cinco processos foram instaurados.

A jornalista Crislei Souza enfrenta o problema. Com duas multas geradas em Salvador, na Bahia, não conseguiu concluir a remoção da multa, tampouco da troca de placa que é uma das orientações do Detran. A descoberta da primeira penalidade ocorreu há quase um ano.

Segundo Montefusco explicou ao G1, as quadrilhas que atuam nesse tipo de crime, geralmente pegam veículos com características parecidas para aplicar o golpe.

Mas, no caso da jornalista, a história é bem diferente. Proprietária de uma motocicleta, ela descobriu que os veículos não têm qualquer tipo de semelhança. A clonagem foi descoberta quando a primeira multa chegou em março de 2018.

“A multa é de Salvador e a placa da minha moto está em um carro”, conta ela que diante da surpresa fez o boletim de ocorrência (BO) em uma delegacia e depois foi ao Detran.

“Expliquei toda situação a eles e me orientaram a fazer uma vistoria lacrada. Isso pago, porque tudo é pago. E junto com essa documentação e uma carta que fiz explicando e pedindo a anulação de multa para o Detran da Bahia, mais todos os documentos que pude juntar enviei”, conta.

Nesse processo todo, a jornalista descobriu que a multa era da Secretaria de Infraestrutura da Bahia (Seinfra) e teve que mudar o contato. Quando finalmente a multa foi retirada no estado da Bahia, no sistema do Acre ainda constava a multa.

Segunda multa

Ao descobrir que a primeira multa ainda estava registrada no sistema do Detran do Acre, Crislei foi notificada pela segunda vez. Foi quando a orientação foi a de fazer a troca da placa do veículo.

“Se o Estado não se manifestar durante um longo período e acontecer de chegar outra multa ou que haja mais prejuízos, nesse caso, a orientação é para que o condutor abra um processo administrativo para realizar a troca da placa do veículo”, explica Eldivon Montefusco.

Mas, para a jornalista, que teme por uma nova clonagem, a saída será buscar uma solução na justiça.

“Durante todo o processo de tudo que fiz, não resolveu nada. A situação é que, com a moto desse jeito, não posso fazer nada com ela. O que me disseram é que só acabaria se eu mudasse a placa do veículo. Já gastei muito dinheiro. Então decidi ir à Justiça. E se clonarem a placa da minha moto novamente, vou ter que ficar trocando a placa de novo?” questiona.

Orientação

“O primeiro passo quando o cliente do Detran chega e manifesta a situação de suspeita de clonagem, nós orientamos que registre um boletim de ocorrência junto a autoridade policial”, diz Montefusco.

Um dos requisitos para iniciar o processo é o laudo pericial que atesta a originalidade do veículo. “Com esse laudo pericial em mãos, o Detran orienta que ele abra um recurso no estado de onde veio a notificação”, diz.

Quando não há resolutiva com a medida inicial, a segunda orientação é a troca da placa do veículo. “Trocando a placa do veículo, a placa que está clonada em outro estado se torna inválida. Fica sem registro”, complementa.

Com a troca da placa, a corregedoria do Detran pode se manifestar pelo cancelamento da pontuação que esteja sobre a carteira de habilitação, assim como pede que a multa seja suspensa já que a placa deixa de existir, segundo explica o gerente do Renavam.

Vulnerabilidade

 A documentação de Gilberto foi enviada. Ainda não tem resposta. — Foto: Arquivo pessoal

A documentação de Gilberto foi enviada. Ainda não tem resposta. — Foto: Arquivo pessoal

O grande problema é devido a placa ser o principal identificador do veículo, fora a cor e modelo, tanto que a fiscalização quando aborda o condutor olha apenas a placa. “Por isso a clonagem, de certa forma, é o método mais fácil de burlar a fiscalização”, explica

Além disso, Montefusco diz que é fácil comprar uma placa e colocar em veículos roubados, prática comum entre quadrilhas que atuam em vários estados do país.

“Aqui no nosso estado não temos registro ainda dessas quadrilhas, mas Centro Oeste, Sudeste e Nordeste há muitas quadrilhas que atuam nesse sentido. Aqui somos mais vítimas”, diz.

O editor de imagens Gilberto Sampaio é mais uma destas vítimas. Com uma multa de R$ 131, registrada no Piauí, ele também teve a placa da moto clonada e afirma que não conseguiu resolver o problema.

“Procurei o Detran e eles falaram que não podem fazer nada. Encaminharam o requerimento que fiz à mão para o Detran do Piauí, mas nada foi resolvido”, lamenta.

Comentários