O negro inconveniente – Por Dodô Azevedo

107

Quem são os responsáveis pelo genocídio dos negros no Brasil, que inicia-se 1831 no Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, o maior porto escravocrata da história da humanidade, e vai até hoje, 2018, onde a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado?

A polícia? Não. Há policiais negros e brancos nas corporações comprometidos com a causa. Conscientes.

O governo? Não. Há governantes negros e brancos comprometidos com a causa. Conscientes.

A mídia? Não. Há profissionais de mídia negros e brancos comprometidos com a causa. Conscientes.

Se não estes, então quem?

Os responsáveis pelo genocídio dos negros no Brasil são os fracos.

Os que não têm força o bastante para entender que, em um país onde uma raça foi escravizada, é preciso reconhecer que, depois de liberta, esta raça percebeu-se despedaçada: autoestima obliterada e péssimas oportunidades de acesso a educação, logo à profissionalização em funções no alto da pirâmide.

Os responsáveis pelo genocídio dos negros no Brasil são os que não têm força o bastante para entender não vivemos em uma sociedade com as mesmas oportunidades para todos. Os que não têm força para reconhecerem seus privilégios. E também o contrário, os que não têm força para postular os privilégios que não foram dados e si, sua família, sua comunidade, sua raça.

Os que preferem deixar tudo como está.

Conservado como está.

Há conservadores na polícia, no governo e na mídia. Por isso, costuma-se primeiramente culpá-los. Mas tudo vai além. Todo o chamado “sistema” é conservador. Foi “inventado” para não deixar as coisas mudarem.

Mudança, essa inconveniente.

O ser humano, em geral, é um fraco. Para tudo preferimos soluções fáceis. Desde quando habitávamos as cavernas, preferíamos rezar para chover em nossa lavoura do que nos darmos ao trabalho de construir um sistema de irrigação controlável. Preferíamos eleger o líder da tribo que apresentasse a solução mais imediata para tudo isso aí, ok, e não o que fosse sincero e dissesse que cada um da tribo teria que repensar seus defeitos para que tudo melhorasse de fato. Preferíamos ignorar o que está de errado em nós. Esse medo de mudar. Essa tentação de deixar como está. Essa aversão ao que é inconveniente. Preferíamos conservar. Ignorantes. Covardes. Fracos.

Há fracos, também, de todas as raças e etnias. De todos os tons de pele. Os fracos estão em todo lugar. Entre negros, inclusive, é minoria os que encontram forças para serem inconvenientes. A vida do fraco, do sem consciência, é mais fácil. A ignorância, essa bênção.

Mas há os fortes. Os corajosos. Os conscientes. Os inconvenientes.

Há os fracos. Mas há os brabos.

Spike Lee, diretor americano de cinema, é um deles. Seu novo filme, “Infiltrado na Klan”, conta a absurda história real de um policial negro idealista que, nos anos 70, infiltrou-se na Ku Klux Klan organização supremacista conservadora (porque seu objetivo confesso é conservar os EUA como eram antes dos judeus e dos negros).

O filme estreia no dia 22 de novembro no Brasil já com a fama de “filme do ano”. Principalmente para sociedades como a Norte Americana, que no momento está sofrendo uma espécie de surto de fraqueza conservador, e o filme, forte, energético e disposto, sublinha onde estão os fracos (eleitores do sul do país, principalmente entre sua população interiorana) e na própria Casa Branca. O filme demonstra, com certo ar superior de quem sabe que está do lado dos corajosos e inconvenientes, que Donald Trump não é nada do que um sintoma da vontade do eleitor fraco, que quer conservar, fazer da América grande novamente, reverter as mudanças feitas pelos fortes, pelos corajosos, pelos conscientes. Trump é a movimentação dos seres humanos que têm medo da mudança. Que têm medo dos brabos.

Em português contemporâneo, Trump seria “uma fraquejada”.

O dia da consciência negra poderia, então, ter outro nome.

Dia da força. Dia da coragem. Dia da reflexão. Dia da autocrítica.

Ou, se for dar nome ao que é, que chamemos o feriado pelo que de é de fato.

Dia da Consciência.

Comentários